sexta-feira, outubro 13, 2006

Cansada

Cansada de filas.
E de transito.
E de esperar para no final não haver nada do outro lado que me mova.

E de pessoas, e dos meus esforços por sorrir e tentar pô-las tão felizes e tão (iludidamente) confortáveis quanto eu. E tentar mostrar-lhes que estou realmente a ser sincera


Cansada de, depois de tudo isto, achar que no fundo toda a gente se limita a sorrir de volta e a não se lembrar sequer de mim no dia seguinte. Gente que eu própria também tento esquecer (e esqueço) precisamente por achar que vou ser deixada ao abandono pela memória, como se faz com tudo e com todos os que são fáceis.

Cansada de rodopiar entre mundos e gentes desconhecidas, e de lhes mostrar coisas que não merecem. Cansada de dar elogios, da mesma maneira que se dá as mãos abertas aos animais para eles cheirarem, e puderem sentir confiança.
Para quê pergunto?

Onde está a Flipa que eu conhecia?

Consumo, consumo.me e exagero.
A minha boca suja de vermelho apenas aqueles que estão dispostos a deixar-se sujar de imundices que não importam, ainda que o que eu tenha para dar seja tão mais puro que isso.

Visto de fora não interessa não é!? Ninguém sabe quem sou, mas todos passam a saber e sempre pelos piores motivos.


Naquele dia, quando cheguei de manhã a casa, quis deitar a minha cabeça no colo dela, e não tive coragem.
Sentia.me de alma demasiado suja, para alguém tão forte, e tão pouco merecedora de mais nódoas.
Tenho a certeza que me ias passar a mão no cabelo e ter a mesma paciência de sempre. Deves ser a minha única certeza, mesmo quando certa já pouco te tiver.


Ando com vontade de te falar.
Ando com medo de me perder e de tropeçar.
Tenho.me afastado tanto das origens, que chego a recear não encontrar o caminho de volta.
Preciso de escrever, escrever muito. E faço.o. Preciso de desabafar, e falar, e falar, e falar, e declarar-me às pessoas de quem gosto, e quase implorar-lhes que sejam piedosas e aguentem a minha intensidade, e acreditem na minha verdade…

Mas bolas, como podem aguentar, se eu própria chego a ter dificuldade?
Ando a bajular gente mascarada e morro se de repente lhes vejo a cara que não me mostram normalmente.
Mentira. Com quem eu bajulo, posso eu bem.
Mas quem eu amo, se de repente desaparecerem, como já antes aconteceu… Onde ficam os meus heróis, e as minhas paixões? Onde ficam os meus cacos enterrados?


Estou a precisar de morrer um pouquinho. Só por uns tempos. Antes que alguem me mate.
Afastar-me das dúvidas e arrumar a minha casa, agarrar o meu espaço, reordená-lo.
Cansada da minha alma, e da sujidade e desarrumação que lhe vai cá dentro.
É como andar semanas e semanas a chegar a casa, despir uma roupa, dormir, acordar, vestir outra roupa e sair. Chegar a casa, despir uma roupa, dormir, acordar, vestir outra roupa e sair. Chegar a casa, despir uma roupa, dormir, acordar, vestir outra roupa e sair ...
E quando dás por ti, já não tens espaço para mais nada no teu armário, já não sabes quantas peças vestiste, sabes apenas que foram muitas. Nem as cores que tinham apenas que são tantas e tão juntas que chegam a fazer doer os olhos. Nem as que estão lavadas porque todas as sujas já contaminaram de cheiros imundos qualquer possibilidade de pureza que por ali ainda se encontrava dobrada e inocule.

Cansada de mim. E dos meus valores, aos quais dou valor a mais, e que de repente caiem por terra.
Cansada de mim e dos meus amores, aos quais dou valor a mais, e que qualquer dia desaparecem no ar.
Cansada de mim e do esforço que faço por aguentar tudo, e manter o sorriso, e manter aquilo que sou ou aquilo que finjo ser, ou aquilo que os outros conhecem (ou não conhecem de todo).


Cansada deste ritmo alucinante. E de querer e de poder. E de aproveitar cada segundo e depois ter dificuldade em adormecer, e ter de esperar até que aquela que sou processe tudo o que lhe vai na alma.

Deixem-me estar, ou ausentar. E morrer e amar.
Deixem-me estar
Deixem-me morrer
Deixem-me amar.

Ando suster a respiração há uns tempos, estou prestes a tocar o fundo do poço, mas desta vez é muito diferente.
Estou à espera desse dia, e é esse precisamente que temo que me mata antes mesmo de me afogar.
Porque depois vou acordar, olhar no espelho, tocar-me e perceber finalmente se aquilo que sou ou em que me tornei é a pessoa que quero cá dentro a habitar-me.

Sinto-me usada por mim mesma. E isso assusta-me!





Deixem-me morrer so por uns tempos. Antes que eu própria me mate!

5 comentários:

PG disse...

Morrer...isso todos nós fazemos diariamente.

O que é a vida? A vida é morrer. Não se deveria diferenciar a morte da vida, pois são algo implícito.

Viver...isso todos nós fazemos diariamente.

Filipa, és feliz?
Se não o és, então preocupa-te em buscar a tua felicidade. Não te preocupes em morrer, pois isso fazemos todos nós diariamente.

Bjs, PG.

B.I.T.C.H. disse...

Obrigada pelas palavras PG.
´

Felizmente e estranhamente, sim: sou muito feliz!

beijinho***

B.A.B.E. disse...

é isto mesmo. a intensidade (a vermelho) que eu amo e à qual dou todo o valor (a vermelho).

é por seres intensa neste tipo de coisas que às vezes reduzo a lista a uma só pessoa. a tua. porque todos os outros são intensamente errados nos objectos da intensidade ou intensamente vazios.

faz-te(-nos) mal. mas sabe tão bem viver assim.

Abssinto disse...

Eu adoptei o sistema de viver moderadamente. moderadamente não, controladamente. Controladamente excessivo, controladamente apaixonado, controladamente intenso. E assim é que tem encanto.













No entanto te digo apenas isto, Só estás a precisar de férias.

Um BEIJO

Jorge disse...

Esta foi forte. Conseguiste usar as palavras de forma muito forte.
Experimenta caminhos novos e vais descobrir saídas tapadas pela tua ignorância.

Não desistas já.