Um domingo de Novembro anormalmente sem chuva mas tipicamente chuvoso.
Uma lareira acesa sem ninguém para se enroscar nela.
Falta de coisas interessantes na Tv e nenhum livro de encher a alma na cabeceira.
Ninguém para rir, chorar, conversar ou simplesmente estar, em silêncio.
Pinto os olhos de negro como só podia, vestido preto, cinto largo, collants vermelhas, xaile ao pescoço.
- Que olhos tão escuros. Vais sair?
- Vou.
- Vais onde?
- Vou ao cinema.
- Com quem?
- Provavelmente sozinha.
Deste-me beijinhos e eu saí em direcção ao carro.
Cheguei lá, comprei o bilhete para as 19h30.
Com o euro que sobrou do desconto de estudante tirei um pacote de malteasers da maquina.
Desci as escadas rolantes e encontrei a tabacaria.
- Um pacote de Trident Splash Mint Vanilla e isto.
Paguei, subi, sentei-me, e fumei o meu cigarro, melancólica.
Ninguém interessante. Ninguém interessado.
Entrei na sala. Encontrei o meu lugar que não estava marcado (disse a rapariga das bilheteiras).
Vi as apresentações e adorei sentir a reacção das pessoas aos anúncios. Coisa engraçada. No cinema as pessoas estão mais dispostas à expressão, está escuro e nunca se sabe de onde vêm as vozes e os suspiros.
Comi o chocolate Magnum semi preto com coisinhas crocantes por dentro, a pensar nos Malteasers. Fiquei enjoada. De seguida comi os Malteasers, já com pouca vontade. Que pena. Que desperdício. A minha mala inclinou-se e caíram coisas. Perdi o meu baton do cieiro e quando cheguei a casa reparei que também tinha perdido o vermelho. Merda. Como apanhar batons que caem no chão inclinado de um cinema? Ainda dei à luz com o telemóvel mas a única coisa que encontrei foi um tampão já perto do pé do rapaz do lado.
O filme terminou. Eu saí. Saí pela porta errada mas fui dar à manada na mesma. Tirei outro cigarro e fumei. Apaguei-o a meio para entrar numa loja, mas não valeu a pena. Meti-me no carro, acendi outro e fui para casa.
Sou romântico-depressiva na minha essência. Ando a precisar de alguém que consiga acompanhar as minhas neuras.